Artigo publicado na Agenda Cultural de Março/Abril de 2007 e Maio/Junho de 2007
 
Consumo de Álcool
 
Diferenças entre o consumo e a dependência do álcool
A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica os consumos de álcool em: Consumo de risco; Consumo nocivo; Dependência.
Consumo de risco - É um padrão de consumo que pode vir a implicar dano físico ou mental se esse consumo persistir.
Consumo nocivo - É um padrão de consumo que causa danos à saúde, quer físicos quer mentais.
Dependência - É um padrão de consumo constituído por um conjunto de aspectos clínicos e comportamentais que podem desenvolver-se após uso repetido do álcool, desejo intenso de consumir bebidas alcoólicas, descontrolo sobre o seu uso, continuação dos consumos apesar das consequências, uma grande importância dada aos consumos em desfavor de outras actividades e obrigações, aumento da tolerância ao álcool (necessidade de quantidades crescentes da substância para atingir o efeito desejado ou uma diminuição acentuada do efeito com a utilização da mesma quantidade) e sintomas de privação quando o consumo é descontinuado.
 
Consequências destes tipos de consumo
O consumo de álcool contribui mais do que qualquer outro factor de risco para a ocorrência de acidentes domésticos, laborais e de condução, violência, abusos e negligência infantil, conflitos familiares, incapacidade prematura e morte. Relaciona-se com o surgimento e/ou desenvolvimento de numerosos problemas ou patologias agudas e crónicas de carácter físico, psicológico e social, constituindo, por isso, um importante problema de saúde pública.
Os hábitos de consumo diferem sensivelmente entre homens e mulheres, mas os homens consomem mais. No entanto, a idade de início do consumo é cada vez mais precoce e assiste-se ao aumento do consumo nos jovens e nas mulheres.
Muitos factores contribuem para o desen-volvimento dos problemas relacionados com o álcool como sejam o desconhecimento dos limites aceitáveis quando se consome e dos riscos associados ao consumo excessivo. Um dos benefícios de ser feita a detecção precoce é o facto de os indivíduos que ainda não são dependentes do álcool poderem parar ou reduzir os seus consumos, com intervenção adequada, a qual deverá ser feita pelo seu médico assistente.
 
Verdade ou Mentira?
O álcool não aquece: o álcool faz com que o sangue se desloque do interior do organismo para a superfície da pele, provocando sensação de calor. Mas este movimento do sangue provoca uma perda de calor interno, já que o sangue se encontra a uma temperatura que ronda os 37º e que é quase sempre superior à temperatura ambiente. Quando o sangue regressa ao coração há necessidade de o organismo despender energia no restabelecimento da sua temperatura.
O álcool não mata a sede: a sensação de sede, significa necessidade de água no organismo. As bebidas alcoólicas não satisfazem esta falta, provocando, ainda, a perda através da urina, da água que existe no organismo, o que vai aumentar a carência de água, e, portanto a sede.
O álcool não dá força: o álcool tem um efeito estimulante e anestesiante, que disfarça o cansaço provocado pelo trabalho físico ou intelectual intenso, dando a ilusão de voltarem as forças. Mas depois o cansaço é a dobrar, porque o organismo vai gastar ainda mais energias para "queimar" o álcool no fígado.
O álcool não ajuda a digestão e não abre o apetite: o álcool faz com que os movimentos do estômago sejam muito mais rápidos e os alimentos passem precocemente para o intestino sem estarem devidamente digeridos, dando a sensação de estômago vazio. O resultado é a falta de apetite e o aparecimento de gastrites e de úlceras.
O álcool não é um alimento: o álcool não tem valor nutritivo porque produz calorias inúteis para os músculos e não serve para o funcionamento das células. Contrariamente aos verdadeiros alimentos, ele não ajuda na edificação, construção e reconstrução do organismo.
O álcool não é um medicamento: é exactamente o contrário porque provoca apenas excitação e anestesia passageiras que podem esconder, durante algum tempo, dores ou sensação de mal-estar, acabando por ter consequências ainda mais graves.
O álcool não facilita as relações sociais: o álcool em quantidades moderadas tem um efeito desinibidor que parece facilitar a convivência. Mas trata-se de uma ilusão, porque nem sempre é possível controlar os consumos nesse ponto e porque a relação com os outros se torna pouco profunda e artificial.
 
Bebo demais
Para muitas pessoas, beber um copo de uma bebida alcoólica pode constituir um momento social em que os riscos desse consumo vão depender da quantidade e da frequência com que se bebe e de algumas condições individuais, nomeadamente, o seu estado de saúde.
 
Unidade de bebida padrão

Com a finalidade de quantificar o consumo de álcool, foi criado o conceito de bebida padrão. Consiste numa forma simplificada de calcular a quantidade de álcool consumida diária ou semanalmente.
Embora as bebidas alcoólicas tenham diferentes graduações, os copos habitualmente mais usados para as diferentes bebidas têm quantidade idêntica de álcool, o que corresponde a uma unidade bebida padrão com cerca de 10 a 12 gramas de álcool puro. Este facto permite fazer a quantificação por unidades de bebidas ingeridas, o que facilita os cálculos do total de bebidas consumidas diária ou semanalmente.
Em Portugal, a correspondência é aproximadamente a que se apresenta no quadro ao lado.

Álcool e Problemas ligados ao álcool em Portugal.
Maria Lucília Mercês de Mello et al. – DGS 2001
A OMS considera que não se devem fazer consumos que ultrapassem 20 gramas de álcool (2 unidades/dia) e de preferência estar pelo menos dois dias por semana sem beber qualquer bebida alcoólica.
Não deve beber:
Se estiver grávida ou a amamentar; se conduzir ou trabalhar com uma máquina;
Se tomar medicamentos; em situação de doença;
Em situação de dependência alcoólica; se tiver menos de 18 anos de idade.
Deve reduzir o consumo ou parar totalmente de beber.
Muitas pessoas que bebem demais devem reduzir, mas outras têm mesmo que deixar de beber.
 
É importante que deixe completamente de beber se por exemplo:
Tem tremores, geralmente de manhã; • Tem problemas de saúde, como doenças do fígado ou do coração; • Tem perdas de memória e não se recorda do que aconteceu num determinado período.
Caso detecte qualquer destas situações, deverá deixar de beber completamente. Se tiver dificuldade em fazê-lo, deverá procurar acompanhamento médico. Um plano por etapas pode ajudar a modificar os seus hábitos de beber. Aferição da taxa de alcoolémia. Pela medição da quantidade de álcool existente no sangue em determinado momento. A taxa de 0,5 gramas por litro de sangue (prevista no Código da Estrada) atinge-se com dois ou três copos de cerveja.
Note-se, porém, que há vários factores que influenciam a taxa de alcoolémia, pelo que a quantidade de álcool ingerida não tem o mesmo efeito em todas as pessoas. Ser mulher, ter baixo peso, estar doente ou fatigado e beber fora da refeição são factores que aumentam a taxa de alcoolémia.
 
Enf. Albino Alonso/ Enf. Vitor Pires - Centro de Saúde de Vimioso