Artigo publicado na Agenda Cultural de Novembro/Dezembro de 2005 |
Gripe das aves |
| A perspectiva de um surto de gripe das aves já deu origem a reportagens de televisão e manchetes de jornais e lançou alguma ansiedade entre as autoridades públicas do nosso e de vários países. Pandemias assim já ocorreram no passado com efeitos mortais. Desta vez, o medo gira em torno de uma estirpe de gripe das aves - H5N1 - que existe há mais de oito anos na Ásia e se tem revelado letal para os poucos humanos que a contraíram. Devemos estar muito preocupados? Aqui ficam, em formato de pergunta e resposta, as últimas informações fidedignas para ajudarem a separar factos e ficção. |
| O que é a gripe? |
É uma infecção respiratória altamente contagiosa que as pessoas transmitem umas às outras através do ar - por espirros ou tosse. Os vírus da gripe são classificados em A, B e C. Os vírus A, que infectam patos, galinhas, porcos e baleias, bem como humanos, são os mais perigosos. Estão divididos em grupos conforme as duas proteínas que irradiam das suas superfícies - hemaglutinina (HA) e neuraminidase (NA). Os cientistas identificaram 16 subtipos de HA e nove de NA. A gripe regressa todos os Invernos, alterando-se gradualmente por mutação de um ano para o outro. Em certos anos, a estirpe é mais problemática que noutros, razão por que o número de pessoas atingidas varia entre 5 e 15% da população mundial. A gripe mata algumas pessoas, sobretudo idosos e doentes crónicos; as mortes variam entre 250 000 e 500 000 em todo o Mundo, dependendo da virulência da estirpe. Mas para pessoas saudáveis, a vulgar gripe sazonal não é uma ameaça mortal. É, apenas, uma versão ligeiramente diferente daquilo que já vimos, pelo que temos alguma imunidade. Todavia, de longe em longe, emerge um vírus A novo. Chama-se, a isto, uma mudança antigénica. Quando isso acontece, ninguém tem imunidade ao vírus, que se torna devastador.Uma epidemia é um surto de doença que afecta muita gente. Uma pandemia é uma epidemia que se torna global. Houve três pandemias de gripe durante o século XX: em 1918, 1957 e 1968. A pandemia de 1918 foi a pior, tendo matado cerca de 50 milhões de pessoas em todo o Mundo. |
TRANSMISSÃO |
-Transmite-se aos humanos por contacto directo com aves doentes / infectadas ou superfícies contaminadas. - De acordo com nota publicada pelo Ministério da Agricul-tura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, através da Direcção Geral de Veterinária (2005/09/02), o vírus da Gripe das Aves não se transmite por via alimentar, sendo por isso seguro o consumo de carne de aves. - Difunde-se por intermédio de aves domésticas ou migratórias, sendo este o seu reservatório natural. - O vírus está presente nas fezes e secreções das aves. - Questiona-se a transmissão Homem / Homem. - O período de incubação é desconhecido - 1 a 2 dias (?) |
SINTOMALOGIA |
- Inicialmente, não se distingue de um caso de Gripe. - Os sintomas têm início súbito, são intensos e incapacitantes. - Febre elevada, arrepios, dores de cabeça, dores musculares e das articulações, acompanhadas de tosse não produtiva e prostração. - A febre tende a ser mais elevada nas crianças, podendo levar a convulsões. - Segundo o Instituto Robert Roch, cerca de 50% dos doentes apresentam diarreia severa. - No caso da Gripe das Aves, os sintomas são mais intensos e tendem a ter um maior envolvimento do organismo que numa gripe vulgar. |
CONTÁGIO |
| - Viagens por áreas afectadas. - Contacto com aves contaminadas vivas ou mortas (fezes, secreções). - Contacto com superfícies contaminadas. - Permanece indefinido o risco de contágio Homem / Homem, assumindo-se que a existir, seja baixo. |
RISCO HUMANO |
A Gripe das Aves apresenta risco significativo? |
| - O vírus H5N1 é pouco contagioso como se demonstra pelo escasso número de doentes humanos, ressalvando-se, contudo, que a mortalidade é muito alta. - Há que ter em atenção: - Mutações frequentes dos genes - Possibilidade de recombinação entre antigénios humanos e animais |
PREVENÇÃO |
Vacinação |
| - Não há vacina específica; nos Estados Unidos da América, encontra-se em fase experimental uma vacina para uso humano; - Recomenda-se a vacinação contra a gripe (a fazer anualmente) que poderá conferir protecção contra uma possível recombinação do vírus influenza com a estirpe das aves. |
Outras Medidas |
Antes de viajar por áreas endémicas deverá: - Informar-se sobre a Gripe das Aves; - Comparecer numa “Consulta do Viajante”; - Vacinar-se contra a gripe; - Levar medicação adequada, nomeadamente OSELTAMIVIR “TAMIFLU“ - medicamento que poderá ser usado para prevenir ou diminuir a intensidade dos sintomas da Gripe das Aves; |
NUNCA VIAJAR COM FEBRE |
Durante a viagem: - Evitar o contacto com aves, mercados ou quintas onde existam aves, bem como locais potencialmente contaminados; - Lavar as mãos frequentemente; - Fazer, se necessário, limpeza com toalhetes desinfectantes; - Usar lenços e toalhas descartáveis; - Promover uma adequada ventilação dos espaços, evitando locais com grande concentração de pessoas e / ou mal ventilados; - Evitar eventuais contactos com portadores de síndromas gripais ou estados febris; - Procurar fazer uma dieta equilibrada, exercício físico e repouso adequados, de modo a manter as defesas do organismo; - Procurar cuidados médicos mal se manifestem os primeiros sintomas, o que será ainda mais imperioso aquando do regresso de áreas onde a doença já se tenha manifestado. |
Então, é esse caso para me preocupar? |
Preocupe-se, mas não entre em pânico. O H5N1, como todos os vírus da gripe, é um vírus respiratório e é transmitido pelo ar. Até finais de Julho de 2005, ainda não se tornara altamente contagioso para seres humanos. Houve 112 casos e 57 mortes registadas, a última das quais de um indonésio de 38 anos, primeira vítima mortal naquele país. Só em relação a uma das mortes, a da mãe tailandesa, foi estabelecida a existência de transmissão de humano para humano. Se o H5N1 não sofrer mutação e não se tornar mais contagioso, continuará, ainda assim, a ser considerado um problema de Saúde Pública para os povos do Sudeste Asiático. Se sofrer mutação, é difícil saber que mudança trará : poderá tornar-se mais ou menos virulento. Em ambos os casos, os cientistas e as autoridades de saúde podem combater o alastramento da pandemia com instrumentos e tecnologias antes inexistentes. «Sistemas de vigilância eficazes, os novos avanços da virologia e os sistemas de comunicação de massas permitem-nos detectar eventos entre aves e entre humanos que não eram possíveis no passado», diz Gellin. «Podem dar-nos um alerta antecipado de que apareceu um novo vírus e que está a fazer coisas preocupantes.» |
Enf. Albino Alonso / Enf. Vítor Pires - Centro de Saúde de Vimioso |